Uma Tal de “Liberdade”

Uma tal de liberdade Fundo

 

 

 

Uma vez destas eu desenrolava uma conversa sobre liberdade na fila do pão.

E você pode querer saber como um diálogo tão profundo foi se desenvolver numa fila de pão. E eu te respondo que os diálogos mais profundos acontecem assim: sem ensaios. Pelo menos sempre foi assim comigo.

E depois do desenrolar da conversa, nos seus longos 10 minutos, eu voltava pra casa agarrada à minha embalagem, aproveitando o calor que vinha dos pãezinhos e me questionando sobre a liberdade. E sobre os nossos gigantes poréns a respeito.

Quem é livre? É bom ser livre? Todo mundo tem o desejo interno de ser livre?

Não sei. Conceitos vagos. Parece um transtorno simples de se resolver, mas não é. Não para mim.

Acho que o conceito mais conhecido de liberdade que se vê por aí é aquela materializada. Que você finalmente pode ver nos atos, presenciar com os olhos. Atitudes.

A atitude de pegar um barco, por exemplo, e ir contornar o mundo. Subir a montanha mais alta. Contemplar uma vista única. Fazer o que poucos fizeram. Viver em outro lugar.

É geralmente isso que você recebe como resposta quando pergunta para alguém sobre a ideia de liberdade ideal para àquela pessoa. Sempre gira em torno com lugares, viagens, distância.

Mas, e quando você volta? E quando você desce da montanha?

Você não é mais o mesmo, claro. Foi modificado pela nova experiência, que poderia ter sido um medo no passado, que foi superado. Tanto faz. Você está modificado. E isso é liberdade?

Eu sei que era enquanto você estava lá, no topo, com vento nos cabelos. Ou dentro do avião olhando o oceano pintar o chão marrom, ou seja lá onde tenha estado e o que tenha feito. Mas e quando termina? E quando volta tudo como era? A liberdade está aí ainda? Você a trouxe com você?

Engraçado isso.

Porque a gente não pode começar a ser livre aqui mesmo, onde a gente está?

Eu sempre achei isso estranho. E ultimamente, tenho achado mais do que nunca.

Eu vi muita gente indo buscar a tal da liberdade longe e depois de voltar, esquecer de trazê-la junto. Assim. Como se fosse um acessório que se pode retirar do corpo quando quiser e não uma lição que, uma vez aprendida, virá conosco para onde formos.

E eu fiquei pensando neste tipo de liberdade que não se integra na alma.

Isso é liberdade, este tipo de liberdade que só é “acionada” as vezes?

Gosto de pensar em liberdade como algo implícito e adormecido dentro de cada um, como um acessório de fábrica padrão. E gosto de pensar que a forma de despertá-la e faze-la se manifestar fora do corpo é mostrando a nossa coragem e a nossa responsabilidade. Porque liberdade exige responsabilidade, para delimitar suas arestas e coragem para faze-la surgir, estejamos onde estivermos.

Acho que o nível de liberdade de cada um pode ser medido pelos nossos medos superados. Quanto mais medos superados, menos limitações e mais liberdade.
Obstáculos no chão, campo aberto, liberdade.
Mas é uma longa caminhada. Superar os nossos medos. Derrubar nossas muralhas. É uma caminhada longa e cansativa. Mas com toda a certeza, mais interna do que externa.

Acho que o primeiro passo é: Assumir que temos medos. Medo de muita coisa. Aquele medo chato que faz a gente dar desculpas só para dizer que não é um fraco. Medo de coisa boba como dirigir, ou dizer para os pais que ele pensa diferente deles.

Não assumimos muitos dos nossos medos por vergonha, já que, aparentemente, a maioria das outras pessoas consegue fazer muito bem aquilo que nos aterroriza. Então, você seria mais fraco que o resto do mundo.

Seria?

Não. Não seria.

As pessoas que não tem medo das coisas que você tem, tem medo de outras coisas que você consegue fazer com facilidade. E lá vem elas novamente: As diferenças.

 “Todo mundo é um gênio. Mas se você julgar um peixe pela sua habilidade de subir em árvores, ele viverá o resto de sua vida acreditando que é um idiota. ”

Einstein tinha razão. Mas mesmo assim, não é fácil assumir medos. E sem assumir, não se pode superar e sem superar todos os obstáculos e destruir todas as muralhas, a nossa gaiola estará sempre fechada. Você pode acampar na selva com animais ferozes e dormir a céu aberto, enfrentar a fome o frio e a fúria da natureza. Mas se você carregar os seus medos na volta, sua liberdade sempre ficará para trás e você será para sempre a mesma pessoa.

Esse é o meu conceito de liberdade: Qualquer um pode fazer uma aventura destemida, desbravar o desconhecido, e conhecer os sete mares. Mas enquanto não for capaz de superar as próprias barreiras, derrubar os próprios pudores, perdoar as próprias imperfeições e ser quem se é, independente do chão que pisa, esta pessoa não será verdadeiramente livre nem aqui, e nem em lugar nenhum.

Se libertar das ilusões.

Se libertar de ter que saber tudo, conhecer tudo, ver tudo. Se libertar de ser o filho perfeito, a pessoa perfeita, o cara perfeito, a garota mais simpática. Se libertar de ter que fazer tudo certo, ou tudo errado. Passar por aquela porta que dá medo e mostrar a cara para o mundo. Bater no peito e dizer que tem medo de dirigir, mas que um dia você sabe que vai superar.

E assim, da mesma forma com o medo de andar de bicicleta, medo de andar de moto, medo de dirigir avião, medo de falar com alguém, medo de escrever e publicar as suas pequenas verdades, medo de dizer que você não gosta do seu emprego e que merece mais, medo de ser reprovado no vestibular ao sair do ensino médio, medo de desistir da faculdade errada, medo de trocar direito por gastronomia, medo de trocar a engenharia por cinema, medo de recomeçar tudo do zero depois dos 25 anos, dos 30, dos 50, dos 90. Medo de [ ESCREVA O SEU MEDO AQUI].

Liberdade tem a ver com novos ares, sim. Mas, novos ares dentro da gente.



Bia

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