tinta a oleo

Tinta a óleo

Se eu fechar os olhos eu seria capaz, ainda hoje, quase 17 anos depois de sentir o cheio de solvente que emanava daquela sala.

A porta dava de frente para um jardim de rosas, e a corrente de vento era maravilhosa.
A luz, era uma mescla de artificial com natural e geralmente dividíamos a sala em 4 ou 5 pessoas, mais a professora.
A professora, Hilda, uma mulher baixinha de cabelos curtos, ralos e levemente encaracolados. Os olhos eram simpáticos e voz adocicada, doce.
As mãos pequeninas desprendiam traços delicados com o carvão, nos ajudando a esboçar o desenho que tínhamos em mente para depois despejarmos a tinta a óleo sobre a tela.

A primeira coisa que Hilda fazia ao adentrar o ateliê era ligar uma música que incentivasse a inspiração e o relaxamento no toca CD.
O som vinha harmonioso em nossos ouvidos e o vento calmo eventualmente trazia um cheiro de rosas pra dentro.

A Hilda sempre teve muita paciência comigo e com a minha falta de talento com os pinceis.
Vocês já tentaram cobrir um erro em uma tela com pintura a óleo? Não é nada fácil. Mas a Hilda vinha e me mostrava que era possível fazer lindos detalhes nas telas a partir dos nossos erros.
E eu uma vez reclamei do detalhe que o meu erro havia trazido à tela:

– Vai ficar diferente do modelo da revista.

Foi neste momento que ela veio e me deu uma das maiores lições que eu poderia ter recebido no auge dos meus 13 anos.

– Uma pintura nunca sairá igual a outra, não importa o quanto você se esforce.

Ela foi em explicando gentilmente que o objetivo não era produzir uma cópia perfeita, nem poderia já que quem pintou o original foi uma pessoa em outro momento, com outra interpretação da vida.

– Um quadro nunca vai ficar igual ao outro nem que fossem ambos pintados pela mesma pessoa, pois são momentos diferentes e isso já muda tudo. Muda a vibração do momento e, por assim dizer, a interpretação das coisas que são vistas. – ela terminou.

Cada pintura sempre seria única.

Ali eu entendi boa parte da conexão do artista com a sua obra. Nunca foi sobre copiar uma obra, mas sobre olhar pra algo e trazer a sua própria interpretação daquilo pra fora do seu corpo. A pessoa do momento, na vibração do momento, com toda a alma viva daquele momento expressando um ponto de vista acerca do que vê.

O agora, daqui a meio segundo já se transformou em passado. Nós também. O que vemos também e tudo o que somos.

No intervalo das aulas, a tarde tinha sempre uma reunião com biscoitos e café.
Tudo lá me acolhia como um abraço quentinho. Como um lar com lareira acesa – e veja bem que eu não disse “casa”, eu disse LAR.
E por maior que fosse o desafio do aprendizado, eu sentia que poderia confiar que a inspiração viria no momento certo.

Assim acontece aqui, com a escrita até hoje: eu olho pra mim e vejo que não tem nada de especial pra dizer, mas eu me posiciono frente a uma folha de papel com a musica certa e as palavras começam a fluir das minhas mãos como a respiração entra e sai dos meus pulmões.

Hilda não sabe, mas me ensinou muito mais do que só a arte e pintura à óleo, ela me ensinou a confiar na minha visão das coisas e como devemos agir diante das situações que nos aparecem e requerem de nós, mais do que aparentamos poder oferecer.

Eu olho pra uma arvore balançando com o vento hoje, e lembro das palavras da Hilda e me inspiro pra derramar algumas palavras no papel. O que me leva a crer que tudo nesse mundo é arte.

Obrigada Hilda, por me mostrar que tantas vertentes de um mesmo universo, por me ensinar sobre a vida, coisas que eu jamais aprenderia sozinha.

O artista, ainda que se baseie em um molde já pronto, jamais conseguiria trazer a tona algo que já não morasse há algum tempo dentro da própria alma. Tudo que você tem que fazer é se manter fiel a própria intuição. Na arte e na vida.

 

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