Segundo Ato

Estava eu me martirizando pela meu bloqueio criativo desta semana, enquanto pensava:
-Poxa! Vou ter que passar uma semana sem postar.

Não que eu não tenha escrito nada nestes dias. Eu escrevi bastante. Porém, nenhum texto com sentido. Uma porção de narrativas, pequenos atos, pequenas cenas. A maioria me simpatiza muito até, mas nada dos textos que costumo postar. Até que caí em mim: – Vou postar estes diálogos.

Por essas e outras e, também por achar que um gole de ficção (será?) não faz mal a ninguém, vou postar. Começando por esta, chamada segundo ato. Segundo porque não foi a primeira que escrevi, mas foi a que tive vontade de postar agora. Talvez um dia o primeiro ato surja por aqui. Talvez… enquanto isso fiquem com o segundo.

Fundo

 

Esperar sozinha naquele café tinha sido uma boa ideia. O bolinho deles era ótimo, quase me fazia esquecer de todo o perrengue.
Joguei a passagem comprada na mesa ao lado do prato. Ninguém sabia ainda. Mas era tudo sempre assim, de supetão, que as coisas tinham que acontecer. Caso contrário, nunca.

– É assim que tem que ser com pessoas que pensam demais. Se não, nada acontece. – Me convenci em voz alta.

O café demorou para sair, mas quando veio serviu para aquecer as mãos. Quem diria que faria um frio tão intenso aqui.

– Deveria ter pego um casaco mais grosso. – Balbuciei novamente para o nada, reduzindo o volume da frase à medida que ela chegava ao fim.

Sempre tive essa mania de falar sozinha. Era mais fácil de me ouvir desta forma, mais fácil até do que quando eu escrevia meus textos. Talvez essa característica se devesse ao fato de que eu sempre tive que brincar sozinha, quando criança. Eu, estudante de escola pública, e meus primos de escola particular, raramente tínhamos os mesmos horários de compromissos e a falta deles para gastar brincando juntos, então a minha imaginação tinha que trabalhar, pra vida continuar sendo divertida, ainda que eu estivesse acompanhada apenas de mim mesma.

Apesar dos quase quinze graus que faziam neste mês de abril, o deitar do sol ao fundo daquela vista, aquecia-me os olhos. A vista mais bonita da Austrália, na minha opinião. Um dos lugares mais bonitos do mundo, ao certo.

Um ano atrás, tudo que eu queria era uma viagem destas. Não para ficar longe de tudo – pela primeira vez o objetivo não era esse – Mas, agora, tudo o que mais fazia falta era um pedaço de terra conhecida para apoiar os pés. Olhar as mãos enrugadas pelas batalhas da vida da minha mãe e reconhecer por um minuto o cheiro do café. Sentir os pés quentes enfiados nos vãos do sofá como quando eu era criança. Sentir nas costas o peso de pertencer a algo e a algum lugar.

Quem diria que eu poderia querer sentir isso de novo. Sentir falta do que me fez ganhar asas. E eu, tolamente, acreditei que essa segurança para voar era mérito meu.

– Para onde é? – Disse ele olhando fixamente para a passagem.

– Vou voltar.

– Mas você disse que jamais gostaria de voltar para aquele lugar!

– É, eu disse.

– Você não deveria voltar, aqui você está segura.

– É exatamente por isso que eu preciso voltar. Eu ainda sinto medo.

– Você não entende. É perigoso. Pode dar tudo errado.

– Eu já decidi. Vim para cá para me encontrar e fiz isso. Mas só agora percebi que sinto falta de uma parte importante de mim, e creio que ela esteja debaixo da cama ainda, esperando a vida passar. Com medo de sair e o pior acontecer.

– Você enlouqueceu.

– Por favor, entenda. Eu vim incompleta buscar o resto de mim. Mas a verdade é que eu também sou medo, eu também sou dor. Tem coisas que eu preciso enfrentar para sentir que me ganhei de volta. Aqui, segura, escondida, acuada, eu deixo as maiores vitórias para trás.

-Mas aqui você é livre.

– Ninguém é livre se não sente que pode ser feliz em qualquer lugar. Eu já decidi. Eu vou voltar, e só parto novamente quando não for para fugir de nada, muito menos de mim e do que eu sinto. Eu me encontrei, descobri que também sou medo e, agora, preciso me enfrentar.

– Fim do segundo ato. –

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