depressao

Queda Livre

depressão

14 andares, aquele prédio tem 14 andares e você se jogou de lá de cima.
Eu imagino você dizendo “se é pra voar, 14 andares devem dar conta de me dar o impulso necessário”
Somos programados pra cair. Talvez não aos 28 anos, mas releve. Eu já andava sabendo que o seu juízo não era mais o mesmo. Mas o de quem é?

A loucura não tem hora marcada pra vir no seu extremo. O fatídico momento em que decidimos (decidimos?) que as coisas devem terminar, não tem hora marcada. Ou tem?
Entendemos tão pouco disso, essa tristeza súbita que abraça a gente e faz a gente achar que tudo é pouco pra valer à pena estar aqui. Quantas vezes mais subestimaremos a nossa amiga depressão, uma sereia sedutora que te abraça e te seduz a ir cada vez mais e mais fundo, até não restar nada mais pelo que valesse a pena voltar.
Até a dor da morte parecer mais sedutora que a de continuar vivendo naquela casca fina de gente que a gente veste toda manhã.

Eu imagino que ninguém dorme e acorda com o despertador tocando as 6 da manhã pra se jogar da sacada. Então, imagino você sem dormir por toda uma madrugada pensando sobre como as coisas poderiam ser diferentes. A fumaça anuviando a noite e a vista alí de cima, com o céu cheio de estrelas, tornava a poesia ainda mais real enquanto as outras pessoas, que parecem sempre estar mais felizes (não estão), bebem em cantos diferentes da cidade. Mas os outros, hoje, são apenas corpos que não leem dores. São apenas corpos que não entendem. Que pena.

Não tenho certeza, mas acho que a sua cabeça não tinha espaço pra pensar em mais nada, nem supor o que poderia acontecer se realmente não tivesse nada mais do outro lado.
Eu imagino que a roupa não tenha sido pensada. Eu fico tentando imaginar qual a bebida que você escolheu pra entorpecer a mente e fazer os pensamentos pararem de rodopiar por alí como se fossem donos de tudo, paro sempre no wiskey – não sei porque.
Somos programados pra cair. Não deveria ser tão assustador assim. E eu moldo cenários do seu momento como se tudo estivesse calmo e propício, como se você realmente não quisesse ser interrompido. Eu tento olhar pros 14 andares, ver você, de costas pro cimento do chão da cobertura, com os dedos entrelaçados atrás da cabeça olhando pra cima esperando mudar de ideia e ao invés de buscar um beiral, algumas horas depois, buscar o elevador e descer pra comprar pães. Ou pra jogar, ouvir um som, ver um anime. Olhos cansados demais pra chorar, cabeça cheia demais pra pensar. A ideia não mudou e você buscou o beiral.

Mas somos todos programados pra cair. Alguns com mais precocidade do que outros. Mas o livre arbítrio prevalece não só na vida. E eu não preciso entender, eu não tenho que tentar entender, está provado que para você fazia muito sentido no momento.
E eu, fico aqui tentando pensar se você fechou a garrafa de wiskey, se apagou o narquile, se fechou a porta da geladeira, se deu comida pro cachorro ou se desligou a Tv entes de sentar sob o beiral, talvez virar de costas pro mundo e deitar nos braços do vento, como quem, finalmente, confia na vida e no destino. Como quem finalmente deixa tudo nas mãos do tempo e acredita que vai ser tudo do jeito que tiver que ser, e que está tudo bem assim.

E todas as vezes que, do meu quintal, eu miro a ponta daquele 14º andar, eu confio. Confio que você tenha razão sobre zerar a vida, assim como num game, recomeçar. Zerar a mente e o que mais der. E se não for assim, no fim, o vento no corpo pode ter valido à pena. Eu confio e acredito no melhor, por que a fatídica chega pra todos e o tempo todo, e confio duplamente para que a história fique mais bonita na minha cabeça e finalmente por que todos somos programados pra cair.

<3

“A Depressão é uma das doenças mais mortais. Atente a você, atente aos seus amigos. Busque ajuda. Ajude. Não é frescura. ”


Bia

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