Os Bastantes da Gente

Os bastantes da Gente

 

 

 

 

 

E o que é o tempo senão uma forma de fazer com que a gente finalmente entenda que tudo acontece por que precisa acontecer. Todo mundo já está careca de ouvir que toda as situações que a gente enfrenta na vida são aprendizado importantes que precisávamos ter, e mesmo assim a gente sofre, luta contra, se martiriza. Aí vem o tempo e ~vraa~ esfrega na tua cara que era disso mesmo que você precisava, para aprender o que precisava, para conseguir enfrentar o resto desta coisa chamada vida e que deixa a gente com vontade de fugir para uma toca de tatu constantemente.

Acho que o “enfrentar” nem amedronta tanto assim. Mas o “enfrentar sozinho”, esse aí é um monstrão daqueles bem sinistros que ficam fungando na nossa nuca na madrugada escura.

Quando você consegue carregar alguém que seja da sua galera junto em uma nova situação amedrontadora, ela nem fica mais tão amedrontadora assim. Você não está sozinho e isso dá um alívio, ainda que ilusório. Uma sensação de que, seja lá o que venha, duas cabeças resolverão. O problema é que, na maioria das vezes que a vida realmente quer te ensinar uma lição, você está sozinho. E aí, meu amigo, haja coragem para segurar no sorriso todo o pavor de estar fora de seu meio e longe dos seus.
Uma das frases que eu mais gosto do filme “Alice no País das Maravilhas”, ilustra bem isso que eu tento te explicar agora:

“Não pode viver a vida só para agradar os outros! A escolha tem que ser sua, porque quando você for enfrentar “aquela criatura” terá que ir sozinha”.

Isso é o que a rainha branca diz pra Alice, quando todos esperam que ela enfrente uma situação para a qual ela acredita não estar preparada. Depois disso a Alice sai em disparada para dentro do castelo onde começa a se martirizar, ela pensa em todas as próprias limitações e no quão tudo poderia dar muito errado. Ela está sozinha e se decidir ir, terá que ir sozinha.
Por sorte, Alice se lembra de quem é, de tudo que passou para estar ali, e lembra de onde veio, e começa a acreditar que tem a coragem que faltava, e decide enfrentar aquela criatura – sozinha.
Alice tinha uma criatura para enfrentar, nós também. A diferença é que a criatura da Alice tomou forma fora da própria cabeça. Já a nossa, as vezes vem vestida de gente que puxa tapete, de problemas de mil tipos, relacionamentos destrutivos, e na maioria das vezes, vem em forma de pensamentos de auto depreciação. Algumas das nossas criaturas mais assustadoras são os nossos próprios pensamentos.
Não ser capaz o bastante, não ser bom o bastante, não ser bonito o bastante, não ser profissional o bastante, não saber o bastante, não conhecer o bastante, não ter dinheiro o bastante, não ter talento o bastante.
E afinal, quem diabos determina o bastante?
Quem determina o “bastante” é a nossa coragem de seguir – sozinhos.
É a nossa coragem de “se bastar”.

Quando eu decidi enfrentar uma das minhas criaturas sozinhas, há 2 anos atrás, eu peguei uma mochila, coloquei algumas roupas e preenchi o resto dos espaços com todas as certezas que eu tinha sobre a minha decisão. Sobrou pouco espaço para as dúvidas sobre o bastante.
Eu não tinha nada. Não tinha um trabalho certo, eu não tinha lugar para dormir, eu tinha pouco dinheiro. Mas o que eu tinha de bastante era certeza de que era aquilo que eu queria. E aquilo já me servia tanto, que o resto dos bastantes que faltavam ficaram pequenas.
Deu tudo muito certo, depois de dar tudo muito errado.
Voltei dessa experiência com muito mais do que levei na mala. Sem perceber, os meus bastantes aumentaram. Grandiosamente. E eu também.
Isso não quer dizer que ir sozinha tentar uma coisa nova já não me amedronte mais. Amedronta e muito. Mas agora eu sei que eu não posso ser medida pelos “bastantes” que alguém ou que a nossa mente inventou, isso porque nem nós mesmos sabemos das nossas próprias capacidades, a única certeza absoluta é que a gente sempre pode mais do que acha que pode.
Mas os bastantes são ilusórios. Eles fazem com a que a gente veja apenas parte da história, geralmente a parte mais perfeita. Esses bastantes fazem com que a gente se compare com corpos e mentes, estupidamente diferentes de nós, isso porque tem outra história, vieram de outro lugar, enfrentaram outras coisas e, provavelmente, carregam outros tipos de bastantes.
E agora eu sei que confiar nos próprios bastantes sem nem saber quais são, parece a coisa mais difícil deste mundo, e dá o maior medo de ser narcisista demais e seguir em frente, sozinho, acreditando, ser o bastante. Mas hoje, mais do que antes, eu sei que seguir em frente desta forma, pondo a cara a tapa, é o bastante para começar e que é o único jeito de realmente ver as coisas que não nos satisfazem mudar, e que por fim vale muito à pena por que é nada mais nada menos que a nossa felicidade que está na jogada.

Eu desejo que, de agora em diante, você perceba que é o bastante.

 

Deixe uma resposta