Lobotomia e Bagunça

 

 

Bagunça

 

– Não se abandone, meu bem! Você é tudo o que importa.

18:54 de uma segunda-feira, acordei, como de um transe, e percebi que meu quarto estava uma bagunça. Não que isso seja raridade, mas era uma bagunça “proposital”. Com certeza era um protesto. É sempre assim que começa o meu protesto para mim mesma, mesmo que soe como se eu tivesse transtorno dissociativo de personalidade, não é bem por aí. É só que eu me perco as vezes. Vou contra minhas metas, não termino coisas, perco o foco dos ideais ou sonhos – chame como quiser, mas estou semi lúcida.
Eu percebo que priorizo coisas como, tomar banho, comer e fazer o mínimo de “social”. Obrigações básicas feitas, mas o alívio – aquele que a gente sente quando termina os afazeres todos – não vem nunca. Lógico que não vem, tem muita coisa ficando pra trás.
Aí tem a fase das desculpas, o tempo, a meteorologia, os outros… nunca o “eu”.
Apesar disso, eu sei de onde parte o problema e de onde coincidentemente parte também a solução. Sabendo disso, vou deixando sinais de que o ‘eu’ que ainda quer sair por ai explodindo o mundo e realizando coisas,  está morando dentro do eu hipnotizado que caiu na lábia da sociedade que diz que nascemos apenas  para trabalhar, pagar contas, ter uma aposentadoria e morrer. A Lobotomia.

– Não sou dessas – repito pra mim mesma. Nunca fui.

Mas a gente esquece. E a gente esquece todo dia porque a ameaça mora não só ao lado como dentro. Fomos treinados para sermos ótimas máquinas de produção braçal e sem coração. A gente nem sabe pra que, mas precisa produzir. Segunda-feira, as 10hrs da manhã, qualquer um que esteja fora do local de trabalho (e que não esteja em outro turno) é uma peça fora da sociedade. Produzimos sem saber pra que, sem saber porque, apenas sabemos que precisamos produzir em horário comercial, integral, bancário ou seja como for. Tem gente que chama isso de responsabilidade, eu chamo de lobotomia. Não ver outra saída a não ser essa que ao mesmo tempo que parece ser a saída muitas vezes não alivia as dores mais doídas de dentro. Afinal, que tipo de saída é essa que não trás alívio ? Pode ser a saída de alguém mas será que é a sua? Porque esse padrão ? Porque tão poucas opções? Porque não mais do que isso?
Sem contar que tentar não esquecer o próprio caminho, aquele que você quer pra você, é um trabalho diário muito pesado. A gente se perde mesmo, e eu me perco quase todos os dias.

Don’t be like the rest of them, Darling!
Antes de eu ter que resetar meu celular essa era a foto de capa dele. E eu lia ela todo dia e me forçava a pensar nela todos os dias. Eu não acho o “resto deles” ruim, e eu não quero simplesmente ser a “diferentona”, não é disso que esta frase fala pra mim. Ela diz muito mais, ela diz tudo que eu esqueço quando me acostumo a ser uma pagadora de contas e esqueço que isso aqui é tudo que eu sei fazer e é tudo que eu preciso fazer quando as coisas estão difíceis demais. E onde eu reciclo o que eu sinto, sinto tudo de novo, mas dessa vez de uma forma bonita que me leva pra frente. É onde eu rebusco o que eu sinto pra jogar no lixo e transformo em ouro, em aprendizado. Eu sempre tive uma forma diferente de aprender as coisas. Aqui é onde eu produzo as coisas que mais me aliviam do peso do mundo e de não saber pra onde ir.
Quando eu esqueço do que eu gosto de fazer, do que eu gostaria de ser e do que eu quero me tornar, eu me torno um robô que paga contas, e eu perco tudo que me faz segurar a onda quando tudo que eu busco parece estar longe demais. Eu perco o fio da meada, e a bagunça que fica quando isso acontece é difícil de limpar, leva tempo. Levou quase  2 meses pra eu começar a voltar pra mim. Pra eu ser o que eu nasci pra ser, esquisita, diferente, igual, invisível, qualquer coisa, mas definitivamente não como o resto dos lobotomizados.
Essa barra é minha e eu preciso me virar pra não desistir de mim.
As minhas bagunças espalhadas pelo quarto propositalmente, estão me trazendo de volta, aos poucos. Vou mudar meu fundo de tela do celular, e aos poucos, dia após dia, vou colocando as coisas nos seus devidos lugares.
Isso porque as minhas vontades, anseios e tudo que eu sinto e deixo sair de uma forma ou outra, pode ser ignorado por muita gente, mas não por mim.
Eu vou me trazer de volta, aos poucos e pacientemente. Porque até o que você nasceu pra ser precisa ser desenvolvido dentro de você com perseverança.
Estamos combinados assim, eu não desisto aqui e você segura as pontas por aí.

Com amor,

Deixe uma resposta