Leonina

Leonina

Bella’s Lullaby, taça de vinho cheia, e a vista mais alta da cidade.
Fazia dez graus aquela noite e era a desculpa perfeita pra usar a blusa mais aconchegante que coube na mala.
Há 15 anos atrás ela já tinha passado por isso: findar um amor.

Que diferença teria desta vez além de algumas lágrimas a menos pra cair e a certeza de que haverá vida no fim?

Nenhuma. A dor era igual, mas a pessoa que passava por ela, hoje uma mulher, já tinha sobrevivido a tantas metamorfoses quanto podia.
Não tinha diferença, mas nada era igual.

A decepção as vezes causa um gosto estranho na boca. Gosto de culpa, raiva e impotência. Mas não hoje. Hoje, neste exato momento, tinha gosto de vinho chileno dos bons.
Sofrimento as vezes não é opção. Mas a forma de senti-lo pode ser.
Por que sentir o sofrimento é necessário pra que ele passe. É necessário passar por isso e mergulhar nisso.

Ela não soube sempre disso, mas o tempo a fez saber que pra deixar algo pra trás é preciso antes explorar a fundo.
Mergulhar, chafurdar, sentir, impregnar aquilo na pele e, depois se purificar com um banho de ressurreição – e vinho se essa for a vontade.

A decepção também é culpa nossa. As expectativas são nossas, todas nossas.

A gente constrói sozinho e é obrigado também a destruir tudo sozinho. Os castelos todos, um a um, manualmente.

Apesar disso, sempre é possível incendiar outra vez. Pelo menos pra ela, que sempre só conseguia sentir as coisas assim: tudo de uma vez só. Bem forte e bem perto.
Por isso sempre gostou de clima mais frio – Por que por dentro era incêndio todo dia.

Leonina pura.

Não cabia em canto nenhum e se tentassem encaixa-la, se expandia e fugia. Não queria nada que não parecesse ser dela e apenas dela. Criava um mundo todo fora do peito, se necessário. Os convites nunca foram distribuídos a torto e a direita. Gostava de gente, mas os de perto eram poucos e é bom que fossem bons, porque um coração leal sempre sabe reconhecer outro.
Dividia o pódio com quem quer que fosse, sem medo de ser diminuída. Ela sempre emprestou o colo de prontidão. Em troca: troca.

Um coração por outro.

Se ela se dava por inteiro, não eram raras as situações em que, como nesta, ela se via nada. O gosto era ruim. Amargo. Gosto de desonra.  Gosto de desperdício de tempo.
Mas não era, nunca foi.
Sempre, em tudo e em cada espacinho de tempo, sempre foi derrame, esbalde, demasia, transbordante. Sempre foi demais.

Se não fizesse o tempo parar, não servia.
Essa busca por intensidade sempre foi cansativa, com um mundo onde tanta gente se economiza pra tudo, ela sentia que não seria capaz de esperar por quem não queima logo de cara. Ela sentia necessidade de encontrar intensidade no outro, a mesma que tinha nela, na maior parte do tempo.

Assim, ela poderia pegar emprestada a explosão quando o frio de fora chegasse dentro.
Se aquece, serve. Se esquenta rápido, pode entrar. Se sabe cultivar tranca a porta e fica pra sempre.

Ela divide. O fogo, a cama, o colo, o vinho, a mesa, a pipoca e o mesmo lugar do sofá. Ela divide a vista linda da montanha, o vinho e até o casaco. Ela divide.

Mas as vezes não fica pra sempre. As vezes é passageiro, e só o que resta é regar o ponto final a uma despedida que começa triste e termina no ultimo gole, que é quando ela já percebeu que a melhor parte de tudo é que a gente só divide quando tem o bastante.

Ela  sorri.

Bia

Paulista, louca dos signos, determinada e inconformada. Tem a escrita como válvula de escape. Passou boa parte da vida idealizando uma vida e vivendo outra e, agora, tudo o que ela quer é começar a tirar os planos do papel. O blog Andei Pensando é um deles!

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