idas e vindas

Idas e Vindas #umlarparabia

Desde de que eu enfiei essa ideia, de morar numa canto só meu, na cabeça, meu coração saiu da gaiola de tal maneira que agora ele não volta mais nem que eu peça com jeitinho.
Ta solto, ta espaçoso, ta livre.
Eu sei e compreendo que uma coisa é como a gente espera que seja e outra é como as coisas acontecem. Existem dificuldades que raramente vem junto com a forma que a gente imagina uma coisa que quer muito – que é sempre da forma mais alegre e empolgante possível.
Pelo menos é assim pra mim, mente super-sonhadora se apresentando, muito prazer.

Eu tive algumas tantas coisas que aconteceram na minha vida de forma precoce, uma delas foi o gritar da minha independência.
Minha mãe sempre conta que no primeiro dia que ganhei meu quarto solo, ela pensou que eu teria medo e ficou pronta pra dormir comigo até me acostumar, porem desde a primeira noite eu passei a chave na porta e só apareci no outro dia. Ela achou que eu demoraria pra me libertar da dependência de dividir o quarto com alguém, mas com 12 anos eu já não estava satisfeita nem com o meu quarto solo (que tinha acabado de conquistar), eu queria a minha casa. É isso ai, com 12 anos eu queria morar sozinha.
Sonhei até chegar a época de vestibulares crente que rolaria de pegar as trouxas e me mandar pro mundo. Não rolou. Eu descobri que as pessoas que saem de casa pra faculdade, geralmente tem recursos que eu não tinha naquele momento. Ajuda financeira de alguma parte da família, por exemplo.
Eu pensava: Faculdade grátis! Moradia comunitária estudantil! Não tem erro!!
Tem sim. Porque eu ainda precisava comer, beber, me locomover, pagar as contas básicas da casa, livros e sem contar o terror de todo universitário, que mais tarde eu conheceria como xerox. E é muito difícil arrumar um emprego em 2 dias numa cidade nova com 17 anos, sem experiencia em nada.

Enfim. Sem nenhum familiar podendo me patrocinar naquela época eu tive que adiar meu sonho precoce de montar um cafofo só meu e parti pra faculdade pública da cidade mesmo. Morando na casa dos pais.
Desta forma eu ainda tinha que arranjar uma grana, mas tinha mais tempo, já que o básico eu conseguia na faixa.
Sonho adiado, faculdade concluída, já tinha arrumado um jobzinho pra pagar as contas do xerox (rs) e lá pro meu sétimo aniversário de firma, heis que vem a chance que eu esperava: tinha uma seleção rolando pra recém graduados, onde rolaria um job que pagava bem porem me obrigava a morar, pelo menos por um tempo, fora da cidade. Pensei: É agora, porra!
Tratei de correr atrás do tal concurso e acabei passando.
Algumas semanas depois, lá estava eu de supetão indo embora finalmente, com as minhas trouxas numa mão e a passagem do busão na outra.
O que eu tinha? Nada. Só a certeza que eu tava indo embora de casa, finalmente.
E dessa vez ia rolar, porque a grana já estava garantida.
Achei uma beira pra morar com duas pessoas e foi lá mesmo que eu me instalei. E aqui, neste ponto exato da história, eu comecei a entender que “uma coisa é como a gente espera que seja e outra é como as coisas acontecem”.
Eu percebi que morar longe de tudo e todos, mesmo que você não tenha uma casa estruturadinha e certinha de papai, mamãe e filhinho, amor, flores e paz todos os dias, é um parto de trigêmeos! É difícil.
Tem momentos que você ri e fica muito feliz porque a sua liberdade é infinita e porque você tem paz. Mas pelo mesmo motivo, você se pega triste e jogado nos cantos as vezes. A paz e a liberdade, posicionadas da forma correta, tem o poder de afogar uma pessoa tanto quanto a falta delas.
Bate aquela alegria? Bate sim! Mas também bate solidão, impotência, tristeza.. eu já falei solidão?
Lá, jogado no mundo, não tem ninguém que gosta de você e fica do seu lado de graça como a sua família e amigos fazem. Tem vezes que você apenas se vê sozinho e tem vezes que você tá mesmo sozinho.
Isso é delicioso e as vezes desesperador. Demora um bom tempo pra parte deliciosa crescer e ficar maior que a parte desesperadora.
E eu nem quero que você tente entender se você nunca passou por isso, por que eu precisei estar lá pra ver que ter um canto só seu, não é a mesma coisa que ter um quarto só seu.
Partindo daqui, eu quero dizer que eu não tenho a pretensão de achar que vai ser fácil ir em frente com essa ideia de morar sozinha. Mas desde que voltei a morar na casa da minha família, eu nunca “desfiz” as malas, por assim dizer. Antes no sentido figurado, e agora no sentido literal. Mudamos de casa recentemente e boa parte das coisas eu ainda não coloquei no devido lugar simplesmente por não ter encontrado um devido lugar pra nada. Nem sequer pra mim. É como se eu estivesse passando uma temporada fora de casa e em breve fosse voltar pra minha casa. A única diferença é que eu ainda não tenho casa.
Mas uma frase que um dia eu ouvi e ecoa na minha mente neste momento é:
Do lugar onde estou, já fui me embora.

A gente conhece muita coisa nessa vida, e é interessante pra caramba que a gente sempre escolhe ir atrás do desconhecido.
Então isso é o que eu gostaria que vocês soubessem: Eu tô de mudança, gente. Não porque e não ame o lugar onde estou ou as pessoas que estão comigo, mas porque eu amo tanto isso tudo e a vida que me recuso a não aproveitar tudo que a coragem me permitir.

Eu tô de mudança, gente. De mudança pro meu lugar ao sol e vocês ainda vão me ouvir contar a saga toda desse processo aqui e essa vai ser a forma de eu não me sentir totalmente sozinha de novo.

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