Fuga

O texto harmoniza com You Don’t Know How Lucky You Are.

FUGA

 

Eu não sei se você já teve uma decepção em algum momento da vida de tal forma que o mundo tenha ficado bem menor do que o tamanho que vc precisa que ele seja pra poder respirar. Quando você aposta suas fichas e perde, e não sobra mais nada. E você olha em volta e olha pros lados e finalmente pra trás e vê que perdeu mais do que fichas hipotéticas. Você perdeu a confiança das pessoas que acreditavam que você sabia o que estava fazendo. E muitas destas pessoas talvez também tenham desistido de te alertar sobre um caminho perigoso e foram embora. Pessoas importantes.
Mas você não poderia ver, não se pode ver além. E as águas eram as mais bonitas que você já havia visto, e era frio, e o vapor que subia era quente e acolhedor, não houve escolha e mesmo que houvesse, a velocidade do seu coração batendo e batendo como nunca, deveria justificar a sua mudança de curso. Ninguém mais via o que você via, talvez alguma coisa naqueles olhos, talvez alguma coisa…
Mas naquele momento, quando você perdeu tudo, com o peito adormecido, você apenas não sabe.

Você não tem fichas, você não tem nada. Nem a si mesmo.
Você não está em lugar nenhum.

Acho que todos nós temos pontos na terra pra onde sentimos vontade de voltar quando tudo perde o rumo. Foi pra lá que ela fugiu.

Naquele dia não fazia sol e a praia estava vazia por causa do tempo nublado. Na metade do caminho ela desistiu dos sapatos e caminhou, apenas isso. Atravessou algumas ruas, e travessas, sem olhar pra tras, sem medo de ser seguida. Ela subiu a rua torta que ia pra lugar nenhum e chegou no quebra-mar. Não sabia se era o vento, se era a noite chegando ou se os seus olhos apenas não podiam ver bem o mar, pulou o pequeno muro que a separava das pedras grandes. As mesmas que invadiam a imensidão azul com petulância e faziam divisa do verde vivo da grama que vinha lá de cima da serra, e o mar, agora a poucos metros dos seus pés. Quebrando, enfurecido.
A maré ia subir e ela, que sempre teve medo do mar, não temeu. Ela não estava ali.
Deitou na pedra e esperou. Esperou que os respingos no rosto a despertassem daquele transe e que tudo não tivesse passado de um engano, esperou que o vento a dissesse que tudo ia ser como antes, esperou que a noite viesse colar os pedaços de dentro dela. Ela esperou.
Era alto, era frio e dava medo. Mesmo assim ela não sentia nada, estava tudo perdido no vazio.
Eu juro de pé junto que aquele foi o dia em que eu achei que ela nunca mais ia voltar a ser…ela.
– Mas ela que sempre volta…Não desta vez. Pensei

Hoje, essa história na boca dela não existe. Ela conta daí por diante. Conta do dia seguinte quando o sol voltou e da semana seguinte quando o interfone tocou e alguém a chamou pra ver o laranja do céu a tardezinha, depois de tantos dias nublados lá dentro, ela aceitou. Ela dançou, pulou e viu alguns dos sorrisos mais bonitos pra copiar mais tarde, reaprender e voltar a florir como antes. Ela conta que alguém pegou na mão dela, exatamente como naquele desejo que ela havia feito antes de dormir, e foi indo tudo embora. A vontade de ser livre voltou e se instalou e ela conta até hoje como era o brilho no olho que ela viu, ela fala da felicidade que ela conheceu, ela fala sobre o formato das suas mãos e de como você salvou ela sem saber, sem querer.
Ela fala de você com um carinho que talvez ninguém tenha por você, nunca.
Hoje ela só volta naquela pedra as vezes pra lembrar que tudo tem jeito e pra lembrar de espelhar o seu sorriso pro mundo.
E você? Como você conta a história dela por ai?
Será que você sabe que um dia foi o herói de alguém?

Não reclama nunca da vida não. De presente do mundo você tem a gratidão de alguém, eterna.

<3


Bia

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