Ela Não Era Flor Que Se Cheire

flor que se cheire

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Ela não era flor que se cheire. Entre um cigarro e outro sussurrava suas histórias loucas. Os lábios vermelhos frenéticos disparavam contos sobre armas, apelidos ocultos, outras terras e vez ou outra, morte.
Nada disso parecia mais feroz do que aqueles lábios vermelhos se movendo. Ninguém ousava duvidar. As histórias traziam poder e estar com ela era como estar no topo do mundo, observando tudo de cima e pensando em como o resto das pessoas infelizmente não conhece metade das aventuras que a vida reserva por medo de se arriscar.
A voz dela de manhã era como uma música viciante. O cheiro de baunilha impregnava os lençóis e, mesmo sem saber o porquê, não havia vontade nenhuma de viver fora daquela atmosfera, entorpecente, quente, única.

Entre uma crise de ciúmes e outra, levantava a sobrancelha e fazia como se não ligasse. Como se, tal qual dona do mundo, conseguisse o que quisesse e quem quisesse num estalar de dedos. Dona do mundo.

Vestindo regata e tatuagem, pintava as unhas dos pés de preto, na sacada para o jardim, cor que usava como uniforme nas unhas – combina com todos os meus humores, dizia ela.
Brava, sumia pra longe, ninguém achava mas fazia saudades em todo mundo. Se não a conheceu talvez não saiba que o abraço marrento dela, ainda que houvessem um ou dois moletons para nos separar, era como o calor de volta ao corpo depois de uma temporada inteira de neve grossa. O calor do verão te envolvendo de uma só vez.

Falava de amor como quem se alimentava dele todos os dias, café, almoço e jantar. Vestia um sorriso que desarmava quem fosse, e mesmo que o sorriso não o fizesse, os olhos com habilidade de despir cumpriam bem a missão.

Vivia a vida como se sempre quisesse mais, e queria, e buscava, e encontrava. Um anjo no corpo do mal. Conheci as piores facetas da vida ao lado dela, passei apuros maiores do que jamais desejei e dos quais até hoje não consegui me livrar totalmente, vivi grandes pesadelos, senti nitidamente a ponta de cada pedra sob os meus sapatos caminhando ao seu lado. Na boca sempre o sabor do vento e da liberdade, apesar dos calos e perdas que o caminho fez custar.  O tempo passou e eu nem pude ver, acordei e ela tinha ido atrás da próxima página. E eu, fiquei aqui. Estranhamente querendo bis.

Foi o porre de vida mais intenso que eu já bebi, de uma vez só.

“Maybe some women aren’t meant to be tamed. Maybe they just need to run free until they find someone just as wild to run with them.

-Carrie Bradshaw”

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