Ela

Ela era mar turbulento

Tarde da madrugada, em meio a um grupo de amigos achei ela. Naquele dia trocamos meias palavras e sorrisos inteiros, mas com os passar dos happy hours começamos a conversar mais e sobre tudo.
O que mais me intrigava era a forma como ela sempre parecia tão sobrea e equilibrada, mediante qualquer conto. Dura, impenetrável, mas não do modo ruim. E eu que sempre fui o desequilíbrio em pessoa, não entendia como podia ser, ela ali, rocha; enquanto eu me debulhava em lagrimas pelo fim de algo.

O fim de algo sempre veio disfarçado de fim de mundo pra mim, mas pra ela não. Os olhos não eram inertes, eram calmos e cheios de paz, não importava a intensidade da maré que vinha.
Até mesmo quando as coisas desmoronavam pra ela, ela estava erguida, presente, suave.
Eu sempre me achei uma dinamite perto dela.

Como será que faz pra não achar que cada término de relacionamento é o fim dos tempos?
Como sobrevive depois de estragar o cabelo no cabeleireiro?
Como sorrir de novo depois de perder alguém ?
Ela parecia ter PHD em tudo isso.
Eu poderia contar nos dedos as vezes que a vi perder as estribeiras e nunca, nunca mesmo chegava aos pés dos meus momentos de transbordar.

Tudo bem. Não tem certo nem errado.
Tudo bem com lagoa calma. Tudo bem com mar turbulento.

Mas as vezes eu sentia uma vontade de ser ela e agir como quem sabe exatamente que tudo vai dar certo no fim.

Dia destes eu estava em frente o mar… Observando. Meia hora depois, o mar estava me engolindo. Eu quase nem senti, mas o balanço, suavemente, estava me levando.

Percebi que o sacolejo calmo também guarda segredos. Aquele dia eu entendi tudo.

Talvez um dia, alguma coisa ou muitas coisas muito avassaladoras tenha acontecido com ela e tenham devastado tudo. Assim como acontece comigo vez ou outra. Ai ela decidiu engolir o mar turbulento dela e agora, ela e ele são uma coisa só. Se aceitaram, se conheceram a fundo e convivem juntos em equilíbrio, sempre que possível.
Porque o mar turbulento também sabe ser selvagem. Suavemente selvagem.

Acho que é isso. Não é que ela não passe por tempestades, ela é a tempestade, ela é a turbulência, ela é o bem e o mal juntos em uma só vida.

Muito melhor que querer se livrar do que inevitavelmente vai despertar sentimentos estranhos dentro de nós, é aceitar, e sentir tudo profundamente, mergulhar,  entender, ver além, de mãos dadas com a tristeza inevitável e nunca se perdendo nela.  Porque ela, a tristeza, também é uma parte de nós.

Quando você sabe que aquilo não aconteceu com você, mas faz parte de você, você sabe que pode se permitir estar assim, e sabe também que em algum momento vai passar porque ela também é quietude. A tristeza com a fé do amanhã, tal como qualquer tipo de dor, é sempre muito mais branda.

Eu pensava que ela era só luz e calmaria. Hoje eu sei que ela é escuridão e loucura também e isso tudo me fez entender que o meu porto seguro na verdade sou eu me conhecendo e me aceitando por inteira.

Você que acha que se conhece, será que algum dia você já se conheceu de verdade?

Bia

Paulista, louca dos signos, determinada e inconformada. Tem a escrita como válvula de escape. Passou boa parte da vida idealizando uma vida e vivendo outra e, agora, tudo o que ela quer é começar a tirar os planos do papel. O blog Andei Pensando é um deles!

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