As vezes a gente se salva

As vezes a gente se salva

– As vezes a gente se salva quando pensa que está salvando o outro

Merry christmas, Mr lawrance é uma daquelas músicas que te bagunça por dentro, como se algo ou alguém enfiasse um braço no seu estomago e começasse a remexer e remexer.

Tem dias que eu lembro da solidão, tem dias que eu lembro de amor, mas certas músicas sempre me fazem lembrar de alguma coisa. Música boa é assim. Te faz ver.

Hoje me fez lembrar de uma história, e vê-la de outro ângulo.

Meu avô morreu sozinho, e ao mesmo tempo não.
Isso quer dizer que muitos se aproximaram no seu leito de morte, mas poucos acompanharam a sua luta contra a cirrose de tão perto como alguns. Alguns de sempre como os filhos que foram criados perto dele, alguns que nunca como eu que tive outra família que me adotou, que no caso, era minha família mesmo.
Essa parte eu conto outro dia, por que é complicada. Estamos aqui pra falar sobre cultivar pessoas.

Eu acho muita petulância minha falar sobre o que eu não vi de perto. Logo, vou falar do que eu ouvi e do que eu vi a respeito do meu avô.
Ele teve uma esposa que faleceu cedo e teve filhos com ela. Isso é tudo que me contaram.
Agora o que eu vi:
Eu o vi sozinho. Todos os seus últimos dias. Eu lamentei tanto que me aproximei e senti dor todos os dias por não ter o feito antes. Eu não sabia que ele precisava de mim, ele nunca disse. As pessoas as vezes não dizem que precisam da gente. Que pena que cheguei tarde, que bom que cheguei cedo.

Eu fiz o chá de algumas manhãs para acompanhar o pão que eu também ia comprar. Eu fiz o  doce de figo que a mãe dele fazia quando ele era criança, e que obviamente não chegava nem aos pés do dela. Dona Hermínia, grande mulher sobre a qual sei muito pouco também, mas estou aprendendo a procurar saber e guardar os detalhes que consigo. A solidão vai embora quando você consegue se lembrar dos fragmentos de quem parte antes de nós.
Eu sentei no sofá ao lado e esperei em frente a TV com ele. Esperei por horas… Esperei o dia passar e as noites também.
Eu fiz companhia pra ele, e isso ele talvez soubesse. O que eu não sei se ele sabia é que ele de fato fez companhia pra mim.
Haviam noites em que eu levava o jantar até a casa dele, eu o servia, o esperava comer a lavava a louça. Depois disso eu por vezes esperava mais. As vezes na sala, as vezes sentada no portão. Eu esperava.
Eu me via sozinha. Incompleta. Em vão.
Eu parava ali e esperava. As vezes esperava ele adormecer pra ir, as vezes ele nem sabia, mas eu esperava. Por ele ou por mim.
Meu avô estava sozinho. Ele andava sozinho e viveu sozinho sabe se lá quantos anos antes de eu resolver participar daquela rotina, sabe se lá quantos dias e noites ele sentou e esperou, sozinho. Talvez ele tenha plantado, talvez não. Talvez fosse castigo, talvez opção. Solidão nem sempre é algo ruim. O fato é que eu estava sozinha também, mas no sentido ruim. E nós dois, ambos em situações completamente opostas e sendo igualmente teimosos com relação a própria situação, nos nos fizemos companhia. E por vezes choramos juntos em cômodos separados naquela casa onde tudo era tão quieto.
Eu achava que estava ajudando. Era bom.
Eu agradeço ao tempo que me permitiu ter tempo. E apenas agradeço.
As vezes a gente se salva quando pensa que está salvando o outro.

<3
Bia

** A imagem utilizada no topo da postagem não é de autoria deste blog. Qualquer problema a respeito, favor falar conosco utilizando o formulário de contato. Atenderemos prontamente.**

Deixe uma resposta