Arte – Passado, Conexão e Aprendizado

 

Arte - Passado, Conexão e Aprendizado

 

 

 

 

 

Um dia destes, vendo um documentário sobre os preparativos de um show muito importante de uma cantora, entendi algumas coisas sobre conexão. Eu falo de conexão interna, aquela que nós buscamos com nós mesmos. Autoconhecimento e coisas do tipo. A cantora colocava no rádio uma canção (Vídeo abaixo do título) com uma letra profunda (uma das suas preferidas), ocupava o centro de uma sala vazia com um espelho a sua frente, e lá ela se refazia de lembranças, sonhos, arrependimentos, desejos e planos… Era quase possível ver o que se passava na mente dela. Intensidade pura. Solidão pura. Alguém encontrando inspiração no maior nível que podia para interpretar, no palco, uma canção que pedia alma. Um drama em versos. Eu me entusiasmei com a ideia daquela cena. Foram cerca de 7 minutos para se encontrar, sozinha, em uma sala cheia de solidão.

A preparação terminou em lágrimas e com a cantora se declarando pronta, ao levantar com passos motivados em direção ao botão de pause do rádio. Aquele que até então, fora uma espécie de máquina do tempo, que a tirou dali e a fez experimentar mil sabores, até encontrar o ponto certo de parar e guardar a emoção. Sabor de coisa vivida no passado, daquelas amargas e doces. Daquelas que sempre tem a ver com amor.

Depois disso a cantora subiu no palco e interpretou a canção de forma tão competente que boa porcentagem do público se conectou com a história. Esse mesmo público que, agora, carregaria parte do trabalho, da sua arte para sempre.

“Lição”, “aprendizado”, “comoção”, “coisa que não se entende”, cada um dá um nome. Eu chamo de conexão, e já falei disso aqui. Conexão esta que, ao meu ver, jamais seria possível se a artista não tivesse parado para se reencontrar com um momento, um sentimento, um passado e se inspirado. Reencontro este que muitos expectadores conseguiram sentir, graças a um passado próprio que se encaixou quase ou perfeitamente no drama interpretado. E este texto é exatamente sobre isso: O passado, as conexões e os aprendizados.

Estes dias eu estava comentando com um amigo como é bom passar por cima dos transtornos do passado e fingir que não existiram.
Foi quando ele me lembra o quão impossível é realmente esquecer. Nós usamos a palavra “esquecer” e na verdade ninguém esquece coisa nenhuma.
Os embaraços, as tragédias… sempre estarão lá. E permanecerão lá, sempre e para sempre.
As situações do passado serviram para algo, e seria inútil se pudéssemos esquecer. O desafio diário é justamente esse:  continuar vivendo com todas as situações, e cada uma delas portando todos os seus inúmeros detalhes doloridos, agora possivelmente aumentados por nossas reanálises em momentos de drama.
E eu comecei a pensar no aprendizado, e na arte.
E eu conflitei os dois.
Acho que as mais belas artes surgem das mais profundas tragédias. E daqui, em primeira mão você percebe que eu sou uma dramática de carteirinha e em segunda a minha relação com a arte.
Seja lá o que você queira fazer na sua vida, é muito importante que este trabalho seja uma arte e que ela por sua vez expresse um pouco do que você sente para quem a aprecia.
Isso é importante para ter sentido fazer este trabalho, é importante para que a vida de alguém seja modificada por este trabalho e, por fim, para que você se sinta útil neste trabalho.
A arte, seja ela pra  riso ou o pranto, é toda um drama puro e bem feito da nossa realidade.
E por assim dizer, dos nossos vampiros…. Do nosso passado.
Eles não devem ser esquecidos. Nunca devem. Mas precisam ser transformados em coisa boa. Eles precisam dar bons frutos, deixar legados. Multiplicar o drama e depois a lágrima e depois a intensidade e depois o riso. Dividir as experiências e os sentimentos.
Viver é sobre isso: fazer a diferença na vida de alguém com algo legitimamente tatuado em si mesmo. Algo que antes era considerado fardo, angustia, medo, loucura, depressão. Transformar em remédio para a cura alheia, que vai refletir na própria.
Os artistas precisam do drama, para as suas artes, nós precisamos do drama para refletir. A reflexão sempre vem do outro. E ela deve vir. Toda arte deve ser sentida com muito mais do que o nosso corpo físico, analisada, moída e chorada. Explorada em todos os lados até só sobrar ali o artista e seu passado dolorido de tão triste, ou de tão feliz. Mas sempre passado, sempre experiência e sempre rica, pronta para ser revivida por outro corpo. Uma conexão quase mágica, de vida ensinando vida. Ensinando que passado é passado, e que ruim ou bom, boa parte do que somos está nele. E por isso deve ser utilizado como nosso maior talento, como algo que conhecemos bem, e deve ser interpretado como a coisa mais única e sincera que já existiu no mundo, em forma de trabalho, em forma de arte.

O passado deve ser remoído para ter sentido de ter existido, deve ser transformado em arte e guardado no passado novamente. Nunca será esquecido, mas com o tempo, ficará gasto, enfraquecerá, diminuirá e ocupará cada vez menos espaço, pesando menos. Sendo mais fácil caminhar, sendo mais leve o fardo do para sempre.

ღ ♥


Bia

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