Amor ou Mesquinharia

Fundo

 

Estes dias eu estava esperando meu sorvete chegar e ouvi a seguinte frase:

– Consegui aquela vaga em Auckland, e até queria muito ir, mas não vou por causa da Lilian.
– Ah, que isso! Ela é adulta!
– Eu sei, mas ela terminou o namoro e eu preciso estar por perto.
~ E esta sou eu prestando atenção nas conversas alheias ~

Eu não sei se a pessoa percebeu a minha feição de desaprovação instantânea no momento que o diálogo chegou a este ponto, pois houve uma freada seca no assunto e uma mudança de atenção para algo tão aleatório quanto o tempo ou algo do tipo.
Eu sempre odiei ver as pessoas que eu gosto indo embora. Desde pequena. Sempre odiei dizer adeus. Mas eu odiava por mim, eu odiava por ficar sem eles e não por achar que era egoísmo da parte deles o “ir”. Eu sabia que existia neles um desejo genuíno de estar no destino da partida e então eu continuava odiando dizer adeus, mas eu sabia que aquilo era o certo a se fazer, por eles.
Distância é algo complicado. É a prova mais realista que você pode ter sobre um relacionamento ser ou não de verdade. E a prova mais clara sobre o seu valor para alguém.
As pessoas confundem essa coisa de estar presente com estar em um mesmo ambiente. Ter as pessoas que nós amamos (e que nos amam de volta, por favor, porque ninguém aqui é mendigo de sentimentos) do nosso lado é sempre muito importante em todos os momentos. Mas isso nem sempre tem a ver com a distância física desta pessoa.
Existem situações em que vemos uma distância muito maior entre nós e alguém que trabalha na mesa ao nosso lado, do que de alguém que está há quilômetros de distância real e física de você.
Em não faço a menor ideia de quem é Lilian, mas estou certa de que seja lá quem for, se for importante para você na vida, se você também for importante na vida desta pessoa, não vai ser um distanciamento físico que se deu para você correr atrás de um objetivo de vida seu, que vai fazer essa pessoa não gostar mais de você. Ou não te achar tão especial assim. E se isso acontecer, já foi tarde.
Eu não sei como você lida com os seus relacionamentos de mentira, mas eu tento eliminar todos. Até porque com o passar do tempo, a gente não quer mais perder tempo.
Está aí uma ótima maneira de você saber quem é de verdade na tua vida: Vai embora. Passe um fim de semana ou vinte, tanto faz, fazendo algo importante para você. Analise. As pessoas com as quais você quis manter contato e recebeu retorno são as que devem permanecer na sua vida, as outras, são só “as outras pessoas”.
Família não deixa de ser família longe. Não ama menos por que está longe (pelo menos não aquela família de verdade, sabe? Aquela que tem pouco a ver com o sangue e muito a ver com cuidar de você sem você pedir). Por que com os outros relacionamentos deveria ser assim?
Relacionamentos envolvem pessoas individuais. Seres com vontades próprias e diferentes. Com objetivos de vida diferentes. E se nós realmente amamos as pessoas que nós dizemos que amamos nós temos que apoiar a luta destas pessoas por seus objetivos. Mesmo que isso inclua a distância física de você.

Eu fiquei pensando nessa conversa que eu ouvi de enxerida, pensando nos muitos detalhes que eu poderia não saber entre esta pessoa e a Lilian. Arranjando motivos para acreditar que o amigo da Lilian não partiria por causa dela. Eu não encontrei.
Quem em sã consciência gostaria de ver alguém que ama não correr atrás de algo que quer muito? Dos próprios sonhos?
Quem faria isso com alguém que ama? Impedir de viver a própria vida, correr atrás dos desejos, viver a própria felicidade?

Não alguém que ama de verdade. Não em um relacionamento de verdade.
Não encontrei sentido na desistência, nem romantismo, felicidade ou amor… não achei nada, exceto uma porção de medo de correr atrás do que quer e uma covardia absurda a ponto de colocar a culpa disso em outra pessoa. Outra pessoa que, se bobear, gosta tanto do amigo que só deseja que ele persiga todos os seus sonhos, que tenha força, e fé, e que não desista frente a nenhum obstáculo.
A vontade genuína de partir não deve ser condenada. A pessoa que parte não está o fazendo para te perder, mas para encontrar a si própria. E o encontro consigo mesmo é a coisa mais importante que um ser humano pode fazer por si mesmo. Se você não puder ir, não segure. Pelo contrário, apoie. Ir ao encontro de si mesmo é uma escolha difícil e cheia de poréns. Ao menor vento fino, todas as certezas desmoronam e a pessoa desiste. A maioria das pessoas desiste no meio do caminho. Não permita que as pessoas que você ama desistam de achar o próprio lugar no mundo, motive, empurre, grite, berre, vá junto, leve no colo se preciso, mas não as faça pensar que estão fazendo a coisa errada. É muito importante ter alguém na vida que te ame tanto a ponto de se alegrar com as tuas vitórias e não permitir que você desista das suas buscas.
Se encontrar alguém assim na sua vida, alguém que queira te ver motivado e feliz, indo atrás do que é importante para você, sem medo, te encorajando e acreditando que você é capaz, conserve. Mais do que isso: Seja essa pessoa! Seja esse tipo de amigo, seja este tipo de amor! Seja este alguém que ama a vitória do próximo. Qualquer coisa menor que isso é mesquinharia pura. Qualquer coisa menor que isso, não é amor.


Bia

Bia gosta de praia em dia nublado, clima frio e café quente. Anda pela rua falando sozinha e coleciona elefantes e coisas vermelhas. Fala com todos os cães e gatos que encontra na rua, e tem um gosto musical metamórfico, mas o som que mais aprecia, ainda é o de ensaios de violão e piano. Coloca sempre a lealdade em primeiro lugar em tudo, tem olhos que mudam de cor e não gosta de desistir.
Uma desastrada leonina com ascendente em libra, que resolveu fazer engenharia e quando terminou a faculdade percebeu que sua verdadeira paixão, desde sempre, eram as palavras derramadas em folhas de papel.

 

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