a gente vive em tudo

A gente vive em tudo

– A gente vive em tudo…
Quando a gente tem mente de romancista é impressionante a história que a gente constrói com uma simples fotografia.

Quando eu era pequena gostava de andar pelo cemitério criando historias por tras das pessoas que alí adormeciam seu corpo, e isso pode parecer macabro, mas pra mim era mais sobre vida do que sobre a morte. Depois de crescida, a coisa mais apaixonante pra mim e pela qual eu gastaria com muito prazer muitas horas do meu dia, é acompanhar imagens ou documentários acerca de lugares abandonados, navios naufragados, e outros lugares que guardam grandes histórias.
E eu digo grandes por que eu não consigo imaginar o contrário quando vejo imagens, por exemplo, de lugares abandonados. Lugares com vestígios de rotina: Uma toalha pendurada no varal, uma xicara apoiando o jornal de vinte anos atrás. Um sofá que abriga um crochê recém começado, uma caneca em uma das bocas do fogão, os chinelos ao lado da cama, o tapete por lavar na porta de entrada, um jardim com plantas com anos de poda em atraso. As vezes eu consigo enxergar as pessoas que ocupavam aqueles lugares ainda por lá, fazendo suas coisas e sem nunca imaginar que um dia, tudo seria ocupado por ruinas.

Isso tudo me diz que, apesar de não levarmos nada daqui, os vestígios do nosso cotidiano constroem nossas histórias, e mesmo que a gente um dia decida deixar tudo pra trás sem se preocupar em deixar a pia limpa, ainda assim um pouco de nós fica alí, junto com tudo, pra contar a história.
As cartas que nunca serão recebidas amontoadas na varanda, e as folhas da árvore que abrigavam o balanço no jardim, e que agora adentram pelo forro que cedeu e tomam conta da colcha desarrumada sobre a cama que guarda o ultimo descanso de quem partiu, por vontade própria, pela força do tempo ou pela ordem da vida.

A vida fica nas arestas de onde a gente pisa, por onde a gente passa.
Tem uma casa que eu vivi até os meus doze anos, e uma das coisas que eu tenho certeza é que eu ainda seria capaz de andar descalça por aqueles corredores e sentir a mesma sensação geladinha de antes e eu seria capaz de ouvir as risadas da família ecoando dos outros cômodos da casa. Eu sei que se apurar os ouvidos, ouço o rádio do meu avô tocando baixinho e o ranger da porta do quartinho. Eu sei que consigo por os pés na terra daquele quintal e me lembrar de quantas vezes, alí eu me abasteci de luz solar e oxigenio. Eu consigo ver a parreira, consigo sentir o medo de atravessar os cômodos a noite no escuro, e consigo sentir o tato da porcelana nas xícaras que carregavam o meu café com leite de manhã. E mesmo que hoje nada esteja exatamente como antes, eu sei que conseguiria me sentir alí, como se um pouco do que eu fui tivesse permanecido nas quinas dos comodos. E é assim que as melhores histórias são contadas: com as devidas evidencias do dia a dia que não consegue ser apagado, mesmo depois de decidir deixar tudo pra tras e partir, mesmo depois da vida escapar por entre os dedos, alguma coisa sempre fica nos lugares por onde passamos e principalmente naqueles onde vivemos intensamente.
E onde não.

A gente vive em tudo.
<3
Bia

**Instagram do artista da foto de cabeçalho: @brucewayne_86 (Facebook também) **
– Pra quem também gosta de imaginar histórias em cenários abandonados, Instagram: @sombrexplore

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