A Caminhada

Fundo

 

O vento batendo em seu rosto como se a levasse para uma outra dimensão, aos seus ouvidos uma música que só fazia sentido para ela, seus passos em sintonia com o tempo, com o seu tempo. Ao fundo carros e motos, a música persiste e tudo em volta vai ficando cada vez mais longe e a rota cada vez mais vaga. O caminho entendido é tão somente aquele que, naquele momento, está sob seus pés.
O vento acaricia seus cabelos lhe dizendo que nada mais importa além do agora.
O sol, faz um fundo suave descendo lentamente, iluminando o caminho aos pés da garota. E ela segue, invisível, eu diria. Sentindo uma alegria quase que sem explicação demonstrada na forma em que leva o ar para dentro do peito com vontade, com pressa. Desejando firmemente que aquele caminho pudesse ser mais longo, que tivesse mais tempo para caminhar ao sabor do vento, já que assim, quase que de olhos fechados, a realidade a fazia viajar, e era bom.
A cidade em que ela vivia parecia, por tantas vezes, sem sentido e sem rumo. Ás vezes, quase que sem vida. Era como morar em um lugar onde não se era possível nem ao menos inventar a própria felicidade. Seu amor morava naquele lugar era difícil pensar desta, portanto, mas era claro também que alí os sonhos tinham pouco espaço, as pessoas observavam umas as outras constantemente e analisavam seus passos desagradavelmente. Desagradavelmente. Era uma situação que nem ela mesma, que tinha a habilidade de se distanciar da realidade, conseguia ignorar.

Era uma garota sonhadora, vivia de textos e pensamentos, respirava poesia e devorava desejos altos no café da manhã. Dentro deles ela se via em outro lugar, onde poderia ser exatamente o que queria. Um lugar seu.
Em sua caminhada era exatamente assim que ela se sentia, como dentro de um destes sonhos, livre para sonhar e imaginar desenhos nas nuvens, livre para tomar raios de sol e ser acariciada pelo vento, sentir seus cabelos seguirem o vento sem medo de parecer ridícula.

Nestes momentos lembrava-se da sua infância, quando acabava a lição de casa e corria para o velho baú da avó, pegava um bonito vestido antigo e se vestia imaginando-se princesa e corria para o fundo do quintal, que era a parte mais espaçosa da casa, se mostrava para o céu, abria os braços e corria descalça sobre a terra úmida. E o vento, como se atendesse o seu chamado, chegava de fininho e lhe acariciava a pele, desprendia-lhe o enfeite do cabelo e a fazia sorrir de felicidade, até quase morrer dela. Era quase que um ritual, ela precisava ás vezes, sentir-se aquecida pelos tímidos raios de sol que visitavam aquele solo de interior nas tardes frias. Nada poderia ser mais maravilhoso do que o cheiro de flores e manjericão molhado de orvalho que o vento trazia junto com ele, ouvir o som dos pássaros conversando entre si, e o barulho das folhas das árvores, como se dissessem que ela não estava só.

Agora, a garota caminhava sabendo que havia crescido, e já tinha responsabilidades.Tal qual um adulto, o caminho estava terminando e seus sonhos sendo, mais uma vez, interrompidos, adormecidos. Seus olhos vão se dando conta do ambiente, e como numa despedida uma intensa rajada de vento ultrapassa seu corpo e o sol se intensifica, suas lembranças e desejos voltam ao lugar, mas logo haverá uma nova caminhada.
A garota diz até logo a todo seu outro mundo e volta para a realidade, sorrindo, como se soubesse, bem lá no fundo, que, um dia quando abrir os olhos após uma longa caminhada, ainda estará no seu outro mundo, no seu lugar, mas desta vez sem precisar imaginar.


Bia

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